quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

EU SOU A LENDA

Olá, jovens pimpolhos:

Por esta altura, já os vossos coraçanitos de pardalinhos assustados devem ter visto o filme I AM A LEGEND, a terceira tentativa (uma vez mais falhada por causa do imperativo do politicamente correcto) para tudo o que eu venha a dizer de seguida não seja considerado um miserável SPOILER:

Ora aqui vamos nós:

Tinha eu doze anito quando li nas férias, pela primeira vez o MUNDO DE VAMPIROS do Richard Matheson com uma bela tradução do Mário Henrique Leiria e uma capaz, assaz apropriada (nessa altura os desenhadores liam o conteúdo dos livros) do Lima de Freitas (acho eu). Nela via-se um homem a passear-se por uma rua em ruínas, com um saco de estacas de madeira às costas. As cores eram sinistras e crepusculares. Por essa altura mal consegui chegar a meio do livro antes que começassem os pesadelos nocturnos. É verdade, pequenotes, este vosso cruel tio também era (em tempos que já lá vão) uma alma sensível. Só o terminei anos mais tarde.

Enfim.

EU SOU A LENDA é de facto um dos mais paradigmáticos romances de terror do século XX, tanto mais que subverte, num ambiente de FC, toda a mitologia de vampiros. Imaginem o que seria, para uma comunidade vampírica, haver um monstro que a luz do dia não mata, a entrar-lhes nas casas e espetar estacas no peito das mulheres jacentes, numa metáfora de erecção penil, como dantes era a língua e os dentes do velho Conde. Robert Neville é um monstro de sadismo. Os pobres vampiros trespassados são vítimas incautas. Neville chega a ter um cão, mas o pobre rafeiro morre de infecções múltiplas logo no capítulo seguinte. A mulher do Neville, fica vampira, mas ele não a quer lançar na imensa fossa crematório que o governo facilitou, e por isso eis que ela volta dos mortos para lhe ir bater à porta alguns dias depois. Quando finalmente aparece uma mulher aparentemente imune, e por quem Neville se apaixona, acabamos por saber que ela não é mais do que um chamariz, o próximo passo na evolução vampírica, uma criatura que suporta a luz do dia e que é capaz de controlar a “fome”. Baleado, capturado, convencido a suicidar-se, Robert Neville ainda assoma à janela, em plena noite e contempla a horda de neo-vampiros que grita de terror mal o vê. Agora ele é o verdadeiro monstro. Agora ele é a LENDA!

E os filmes?

Ai Jesus: THE LAST MAN ON EARTH, com o Vincent Price, era o mais próximo do romance, mas os vampiros transformaram-se em zombies patarocos e a interpretação do pobre Price neste filminho de série Z, rodado em Itália, era tão, tão patética, que nada havia ali que metesse kmedo ou gerasse um mínimo de credibilidade.

O segundo, o OMEGA MAN, com o Charleton Heston (my cold dead hands), era um festival de machismo cinético com ele a massacrar a torto e a direito (a rajadas de metralhadora, clara) hordas de escurinhos fotofóbicos. Para depois morrer no meio de uma fonte, como um novo Messias cruxificado.

Este último filme? Oh boy...Cinquenta anos depois do livro ter sido escrito, ainda em Hollywood ninguém teve coragem para assumir o final do livro.

Vampiros? Nem vê-los. Uma vez mais são zombies a la 28 DAYS AFTER.

A filha da Sónia Braga que aparece lá para o final do filme (acompanhada de um puto ranhoso para mostrar como é imperecível o conceito de família Spielberguiana) não é vampira coisa nenhuma. A sua função na história é nula. Imune? Em busca de uma hipotética comunidade de outros humanos imunes ao vírus? Bah!

E quando Neville estupidamente se sacrifica para que ela possa escapar-se com o antítodo (mas porque não fugiu ele também?), a moçoila escapa-se ao cerco dos zombies sem se perceber bem como, atravessa metade de uma América idílica e florida até chegar à comunidade humana com a ampola do antídoto nas mãos, prestes a salvar a humanidade.

E o Robert Neville, era a LENDA de quê? Ora, do Messias Salvador... Poupem-me!

O canito do Neville (lembrem-se de que TODOS os animais de estimação têm um triste fim nos filmes de Hollywood) morre aqui às garras de uma matilha de cães zombies...

ALTO! ALTO! ALTO! Então o vírus não atacava APENAS seres humanos? Passou-se para os animais? Mas se passou para os animais, então toda a ecosfera da Terra foi contaminada. Temos vacas zombies. Pardais zombies. Gatinhos zombies. Ornitorrincos zombies. Atazanas zombies. Golfinhos zombies. Baratas zombies. Sardinhas zombies. É o fim do mundo sem redenção.

Tudo fica zombie para que resulte uma cena de combate no filme?

Mas esta gente não pensa?

Há filmes a quem perdoo todos os disparates. Há filmes onde nada se perdoa, pois têm a pretensão da grandeza.

Pobre Matheson...

De qualquer modo não percam um outro grande filme dos anos 50, tirado de um livrinho que nunca ninguém resolveu publicar em português: THE INCRIDIBLE SHRINKING MAN! É um perfeito espanto de engenho e criatividade, e totalmente fiel ao livro.

Absolutamente a não perder, principalmente o combate com a aranha.

Mais contos do Matheson em Português? Existem, sim. Por muito que vos espante, a Editora Palirex publicou-o quase todos no inicio dos anos 70. Em três colectâneas chamadas SHOCK!

Procurem-nas nas catacumbas das velhas livrarias em 2ª mão.

E um novo ano cheio de esperanças em algo de melhor que este nos deu, pequenotes!

Abraços do velho Tio Barreiros

3 comentários:

Miguel Garcia disse...

Boa noite Professor Barreiros!
Em primeiro lugar parabens pelo blog, vai ser sem dúvida interessante visitar este espaço!
Em relação à lenda, ainda não li o livro, mas já ando a namorar o bicho nas livrarias, em relação ao filme, fiquei com essa sensação, e mais ainda quando li a critica no blog do David Soares. Farei também a minha depois de ler o livrito.

Obrigado pelas sugestões, ainda agora estive numa dessas livrarias, consegui um PKD, A Transmigração de Timonthy Archer e uma edição antiga de Conan Doyle.

Deixo aqui um link que é capaz de ser do agrado:
Bondade dos Estranhos
Abraço!

Anónimo disse...

Ahhh, sempre há coisas novas debaixo do Sol. Um blogue do Barreiros e do LFS. Já está RSSado.

Continuação de bom trabalho.

Lord of Erewhon disse...

O livro é idiota, tipo escrito por uma vítima do LSD - nem se trata de imaginação, é pura colagem de tudo o que já foi percorrido na ficção científica, no horror e no fantástico, um híbrido, uma diarreia de géneros.